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Nacional
Partido dos
Trabalhadores
02/02/2009
Discurso de Arlindo Chinaglia, no encerramento do seu mandato de Presidente da Câmara dos Deputados
Srs.
Deputados.
Sras.
Deputadas.
Entre iguais, a circunstância
colocou-me na condição de Presidente da Câmara dos Deputados. Sinto-me honrado
e gratificado pela confiança que Vossas Excelências em mim depositaram. Os
avanços da gestão são coletivos, os erros, assumo-os pessoalmente.
Agradeço pelo estímulo e apoio
permanentes que recebi dos membros da Mesa, dos Líderes, dos Deputados e
Deputadas. Sinto-me gratificado por ter presidido a Mesa Diretora que hoje se
desfaz.
Trabalhamos sempre na busca do melhor para a Câmara dos Deputados. Cito
apenas uma ação marcante de nossa gestão: somos o primeiro parlamento do mundo
a zerar as emissões de carborno. Agradeço, pois, a todos da Mesa, a lealdade e
o companheirismo que sempre marcaram nossa relação.
Na
condução dos trabalhos da Casa, tenho consciência que alguns colegas ficaram
magoados com o rigor e veemência com que me dirigi a eles. Não era a minha
intenção. Assim, a eles peço publicamente desculpas.
Sei
também que muitos que solicitaram não tiveram as relatorias pretendidas,
inclusive amigos de toda hora. A impossibilidade efetiva de todos serem
contemplados, em face da demanda e do número de projetos, exigiu um esforço de
compatibilização que muitas vezes impediu o atendimento de pleitos legítimos.
Mas sempre procurei estimular o debate mais amplo possível dos temas e
matérias, pois essa é a força do Congresso Nacional.
E
ao registrar que completamos vinte anos de reconstitucionalização do País,
quero ressaltar que o Congresso tem sido crucial nesse processo. Hoje não se
questiona, mas é sempre necessário reafirmar o caráter essencial do Parlamento
para a constituição e funcionamento do Estado Democrático de Direito. Trata-se
de local privilegiado do embate das idéias divergentes na sociedade, da tomada
de decisões fundamentais para o país,do
diálogo entre os partidos, as bancadas e as consciências. Sobretudo, é o espaço
por excelência da representação do cidadão no plano federal.
No
sistema nacional de poder, não tenho dúvida em dizer que esta Casa é o órgão
mais transparente, mais plural e mais democrático, e por isso mais exposto a
ataques muitas vezes injustos. E muitas vezes ainda sãoprocedimentos com intenção midiática. E
analisando de onde vem, como vem, com ares de pseudo-moralismo, vem à lembrança
o que dizia La Rochefoucauld: “A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta
à virtude”.
Por
dever e convicção, jamais abdiquei da defesa das prerrogativas e competências
constitucionais da Câmara dos Deputados e de seus membros. Tampouco conciliei
com erros que porventura alguém possa ter cometido.
Agimos
sempre dentro dos marcos legais, com a soberania e a responsabilidade que o
Parlamento precisa ter para honrar o voto popular que nos elegeu. Muitas vezes
enfrentamos, a partir da atuação dos outros Poderes, situações nas quais as
competências do Congresso se viram violadas. Nesses casos procurei, respeitando
a independência e a harmonia dos Poderes, agir com firmeza na preservação das
nossas prerrogativas constitucionais que, na verdade, pela representação que
nos é delegada, pertencem ao povo brasileiro.
Na
condição de presidente da Casa, recebi diversas e sucessivas reivindicações da
sociedade, do governo e da oposição. Busquei sempre conduzir os trabalhos na
direção do legítimo e devido exame, pelos parlamentares, dessas demandas.
É a busca desse equilíbrio que, por
vezes, exige processos mais demorados para a decisão parlamentar. Nosso
objetivo tem de ser o de promover, sempre, o debate democrático, buscando
também a agilidade possível e necessária.
O
Brasil experimenta um novo ciclo de desenvolvimento com distribuição de renda.
Contudo, após seis anos de retomada do crescimento econômico, estamos diante da
pior crise econômica internacional dos últimos tempos. Isso sugere a dimensão
gigantesca das tarefas que nos aguardam.
Creio que cresce entre nós a
consciência de que esta Casa precisa assumir de forma cada vez mais clara seu
papel de protagonista, zelando sempre pela preservação da harmonia entre os
Poderes. Permito-me modestamente registrar que no exercício da presidência da
Câmara dos Deputados procurei ativamente contribuir para a consolidação dessa
consciência.
Registro como um marco neste
processo o avanço da tramitação da PEC 511/06, oriunda do Senado, que
estabelece um novo rito para a tramitação das Medidas Provisórias. Já votamos e
aprovamos o novo texto em 1º turno. Estou seguro que ao votarmos agora em 2º
turno, vamos promover um aperfeiçoamento substantivo de nosso sistema
democrático que permitirá à Câmara jogar um papel mais decisivo na formação da
pauta e consequentemente na tomada das decisões fundamentais para o país.
Cito,
como exemplo, a necessidade de votarmos a reforma tributária, o pacto
federativo em meio ambiente, a lei das agências reguladoras, a PEC de combate ao
trabalho escravo, entre tantos outros projetos de interesse da sociedade que
muitas vezes, para além da eventual falta de acordo para votação, ficam
obstruídos pelo trancamento de pauta por medida provisória. Não se trata de
disputa sobre a agenda ou sobre a origem das proposições, mas sim sobre a
definição apropriada dos temas que trarão reflexos positivos para a vida
cotidiana das pessoas.
Ressalto a necessidade premente de
uma reforma política que contemple a discussão de alguns pontos importantes,
como financiamento público de campanhas, votação em listas partidárias,
proibição de coligações proporcionais e fidelidade partidária, sem excluir
outros aperfeiçoamentos de nosso sistema político.
Durante meu mandato coloquei a
reforma política em votação. Ela não foi aprovada, mas considero positivo o
fato de tê-la votado e que o tema tenha entrado definitivamente na agenda
política do país.
Ao
encerrarmos as atividades legislativas referentes ao biênio 2007/2008, não
podemos deixar de registrar o trabalho profícuo desenvolvido por nossa Casa no
período.
Os
números deixam claro que incrementamos os bons índices registrados em períodos
anteriores, realizando mais sessões, deliberando e legislando cada vez mais e
melhor, cumprindo, com eficácia e dedicação, nossa missão constitucional de
representar o cidadão e tomar decisões de cunho estratégico para o País.Saliente-se que o bom desempenho legislativo
da Câmara dos Deputados ocorreu a despeito das amarras inerentes ao atual
processo legislativo.
Em
primeiro lugar, a freqüência com que nos reunimos na Câmara dos Deputados em
2007 e 2008 torna nossa legislatura uma das mais produtivas da história do
nosso Parlamento. Em termos comparativos, os parlamentos de outras democracias,
algumas bem mais antigas e tradicionais do que a nossa, não chegam nem perto do
volume de sessões registradas pela nossa Casa no presente biênio. Vejamos
alguns números:
CÂMARA
DOS DEPUTADOS – Nº DE SESSÕES 2007/2008
2007
2008
Total
de Sessões
361
330
Sessões
Deliberativas
193
162
Sessões Ordinárias
81
60
Sessões Extraordinárias
112
102
CÂMARA
DOS DEPUTADOS – MÉDIAS DE SESSÕES
Década
de 90 – Média
250
2001
a 2006 – Média
289
2007
a 2008 – Média
345
OUTROS
PAÍSES – MÉDIA DE SESSÕES DAS CÂMARAS DE DEPUTADOS
EUA
– 2007
164
EUA
– 2008
114
INGLATERRA
– 2007
146
FRANÇA
– 2006 e 2007
75
CÂMARA
DOS DEPUTADOS DO BRASIL: PROPOSIÇÕES APROVADAS
Proposições
aprovadas em Plenário
2007:
142
2008:
209
Total
do biênio: 351
Conclusivo
nas Comissões (biênio)
367
* Projetos de Parlamentares
236
Assim,
é importante destacar que o resultado já produzido serve para demonstrar não
apenas a diligência e a competência dos nossos parlamentares, mas também a
importância de se trabalhar coletivamente para realizar tarefas que, para
indivíduos que atuassemisoladamente,
pareceriam francamente impossíveis.
Mais
importante do que os números em si é o fato de que contribuímos, com a
qualidade do que aqui se produziu, para aperfeiçoar o arcabouço legal do País e
para aprimorar os instrumentos que viabilizam o fortalecimento da democracia
brasileira.
Como
exemplo, cito o grande esforço desempenhado pelos deputados que participaram do
Grupo de Trabalho de Consolidação das Leis. Em um ano e meio de atividades, os
parlamentares apresentaram ao Grupo de Trabalho onze projetos de consolidação
em diversas áreas e que já estão tramitando.
Não
menos importante é o fruto do trabalho desenvolvido com extrema dedicação no
âmbito das Comissões da Casa. Incluindo as Comissões Parlamentares de
Inquérito, realizaram nada menos que 3.333 reuniões de trabalho, ouvindo 5.256
pessoas convidadas ou convocadas para participar dos debates.
A
Câmara dos Deputados conseguiu mostrar que não se furta ao debate dos grandes
temas nacionais. Em 2007 realizou sete comissões gerais e em 2008, cinco
comissões.
No
exercício da Presidência e na condução dos trabalhos, tive como preocupação
permanente a recuperação da nossa autoridade e imagem. Creio que avançamos e
devemos continuar a fazê-la.
Por
maior que seja o esforço de quem ocupe a Presidência desta Casa, muito pouco
será feito sem o trabalho em equipe, o empenho comum, a ação coletiva no
cumprimento do que nos cabe fazer, em nome do Brasil e do povo brasileiro.
Assim, sinceramente agradeço às Deputadas e aos Deputados – sobretudo aos
membros da Mesa Diretora e aos Líderes dos Partidos – a colaboração, o apoio e
o desempenho político com que engrandeceram esta Casa, ao longo das duas
sessões legislativas que tivemos a responsabilidade de presidir. Desacordos,
divergências de opiniões e confrontos de idéias são próprios da democracia, do
cotidiano parlamentar e da atuação política. Ao calor da luta e à dureza dos
embates, sobrepõe-se a consciência de que cada um de nós deu o melhor de si,
para honrar e para enobrecer o mandato que recebemos do povo.
Faço
uma homenagem aos colegas que faleceram neste biênio, deixando seus exemplos de
amizade, trajetórias pessoais e de dedicação ao Congresso e à vida pública:
Gerônimo
da Adefal (PFL/AL) +11/03/2007
Enéas
(PR/SP) +06/05/2007
Júlio
Redecker (PSDB/RS) +17/07/2007
Nélio
Dias (PP/RN) +20/07/2007
Ricardo
Izar (PTB/SP) + 02/05/2008
Max
Rosenmann (PMDB/PR) +25/10/2008
Mussa
Demes (DEM/PI) +05/11/2008
Agradeço,
também, a todos os servidores da Casa, pela competência e pela dedicação com
que cumpriram seus deveres funcionais. Somos gratos, por fim, à própria
sociedade brasileira, pela confiança no Parlamento como defensor da liberdade,
como fiador da democracia, como promotor do desenvolvimento humano e da justiça
social.
Em
2008, comemoramos datas de grande significação histórica para o Brasil, entre
as quais os 20 anos da Constituição Cidadã, os 200 anos da vinda da Família
Real e o centenário da morte de Machado de Assis.
Isso
serve para demarcar nossa trajetória como nação, que já é longa e tortuosa. E
demonstra também a atualidade do poeta Antonio Machado que, do fundo de uma
Espanha transformada em prisão franquista, nos advertia:
“Caminhante,
não há caminho,
Se faz
caminho ao andar.”
Encerro, pois, este
mandato de Presidente da Câmara dos Deputados que Vossas Excelências me
honraram ao concedê-lo, com a consciência do dever cumprido, desejando sucesso
ao próximo Presidente e àpróxima Mesa.